É preciso parar a azáfama dos dias, para sentir o “voo dos flamingos…”
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Fez-se um silêncio profundo e nessa tarde de céu vermelho e de nuvens a reflectir-se nas salinas do estuário do Tejo, um bando de flamingos rosas e laranjas voava sobre as nossas cabeças, numa beleza ímpar que me levou as lembranças para os sapais do Índico, Moçambique, onde trabalhei. As margens lamacentas do Tejo, na zona de Alcochete, eram nesse fim de tarde do dia 14 de Fevereiro, um habitat de milhares de aves e bandos de outras que se aproximavam para descansarem e nos seus diferentes cantos, emprestavam a mística de estarmos noutro planeta.
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Estávamos a aprender, a usufruir de um “curso de iniciação ao Birdwatching”, sabiamente ministrado por João Jara, um homem que em campo nos alertava com ênfase: “venham ver! aqui no telescópio…fantástico …é um pássaro raro…” . “Reparem nas penas…estão a mudar para a plumagem nupcial…e as cores…notem o bico …e as pernas verdes…”
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Inicialmente fui para o curso a contra-gosto. Ver pássaros? Tanto tempo? O meu marido, Mário Carvalho, um jornalista ambientalista, disse-me que o curso era de dois dias… Embora da mesma profissão, sou especializada noutra área, menos poética. No entanto como gosto de aventura e procuro que a minha vida seja ausente de rotinas, aceitei o desafio… Fazer algo de diferente foi aliás, sempre o meu modo de vida e isso acresce-nos sempre algo. Aqui conheci a Isabel Vieira, uma professora que gosta de dinamizar os seus alunos e já concretizou projectos ambientais. Disse-me que veio para aprender. Estavam a Helena Paixão e o Nuno Sousa, um casal que cultiva a paixão pela fotografia. E foram tantas as fotos que vão certamente enriquecer os seus blogues onde vão mostrando a sua criatividade. Depois havia o João Bastos, o Pedro Gomes e a Sara Sousa, biólogos jovens a quem o João Jara, de quando em vez lhes sugeria que acrescentassem algo mais específico. Além do Hugo Rebordão que me disse ser, engenheiro, e que parecia saber muito de ornitologia, integravam o grupo a Manuela Marcelino, uma profissional experiente, ligada ao parque natural de Sintra, que trouxera o seu marido Honório Gonçalves a fazer um mestrado em História e o filho André, um jovem estudante que se inseria perfeitamente no grupo, um interesse a que eu, estou convicta, reflecte princípios da sua educação. Também a Karina Sousa, jovem brasileira de olhos fascinantes, que está a fazer o seu mestrado de ciências do mar, aliás a cor dos seus olhos, estava também para aprender. Particularidade interessante, o casal belga, Marc e a Claire, de carreira militar e na saúde, respectivamente, e que nos honram com o facto de terem escolhido Portugal “para viver”. Estavam ali para conhecer e usufruir da natureza e por ela manifestavam sempre um grande respeito.
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Assim, neste grupo diversificado e enriquecedor, aprendemos em sala, no Hotel Al Foz em Alcochete, as aves rapinas e os passeriformes, as espécies principais, a plumagem e os padrões de muda, os diferentes comportamentos. O que são limícolas? O que é o Fuselão? E os papa-ratos?... Pois será coisa fácil, mas eu não sabia. Depois munidos, cada um de um par de binóculos, ei-nos mata fora na busca das espécies e andámos em Porto das Hortas, salinas da Ribeira das Enguias, Barroca D´Álva e Pancas. No segundo dia, o grupo já mais próximo pelas vivências conjuntas, tornava-se agora mais espontâneo, mais atrevido.
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O almoço foi mais suculento e variado do que a refeição do dia anterior e a vontade de comer, aguçada pela caminhada, contrariou a boa educação e as pataniscas de bacalhau e os peixinhos da horta fritos, colocados em pequenos pratos de entrada, voaram tão rápido quanto as aves que vínhamos admirando. Neste dia percorremos Arrozais da Giganta, Ponta da Erva, Saragoça e as cegonhas caminhavam em frente aos nossos olhos, as águias sobrevoavam no horizonte e o João esse incansável monitor, fazia-nos escutar e ousar adivinhar o chilrear do pilrito das praias ou rápido “pliu-pliu” da minúscula fuinha-dos-juncos.
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Já em fim de tarde, na minha memória já estava gravada a bela imagem do “voo dos flamingos do Tejo”, eis que o João Jara nos desafia a parar os carros e admirar, de uma longa falésia, a vasta área verde, qual pampa Argentina, da qual se avistavam águias e outras espécies ao entardecer da recolha. De quando em vez um coelho saltitante fugia espantado e ao fundo o nosso olhar encontrava Lisboa… Espectacularmente bela.
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Foi uma descoberta e um fascínio, que me atrevo a dizer, tocou o grupo, a avaliar pelo silêncio que se fez na sala de trabalho. O João Jara, feitas as despedidas, e porque ninguém se levantava, disse….querem começar o curso de novo? Estávamos quietos… ainda a rememorar esse fim-de-semana em que a natureza e seus segredos estiveram ali, ao nosso dispor, e nos avisou que “há sempre coisas a descobrir e usufruir no tempo e para isso também é preciso parar e escutar o voo dos Flamingos.
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Obrigada ao João Jara e a esse grupo fantástico que me calhou neste curso de iniciação, em Fevereiro.
Texto escrito por:
Otília Leitão
(Jornalista)